Corinthians X Palmeiras
por Risomar Fasanaro * | 13-03-09
 
O jogo do Corinthians contra o Palmeiras no último domingo me levou a uma grata recordação

Eram os anos 80. Meu filho ainda adolescente, tinha ido ver o jogo no estádio do Pacaembu.

Quando cheguei em casa, encontrei meu pai cabisbaixo. Não comentou nada sobre o jogo, mas reclamou porque meu filho tinha ido ver a partida, no estádio. Na    verdade   o     mau-

-humor devia-se à derrota do Palmeiras...
-Prá que essas besteiras? Não podia ver o jogo pela televisão? Pois amanhã vou acordá-lo mais cedo ainda, pra ir pra escola, que é pra ele aprender a deixar de ser besta e deixar de ver jogo no estádio. Pela televisão não é a mesma coisa?

Desconfio de tanto mau-humor. Meu pai vivia sempre de bem com a vida... Por que agora acordar meu filho mais cedo? Senti no ar um cheiro de vingança. Quem sabe suas críticas escondessem a vontade de ter ido também ao Pacaembu?

Nisso chega meu filho. Cara feia, reclamando que nunca viu um jogo mais porcaria. Um time tão ruim ganhar do Palmeiras. Além de tudo, quase não viu os jogadores. Péssimo ver jogo no estádio...

“Não foi sua miopia?” Penso, mas não digo nada a ele. Mãe não gosta de ver filho triste. Ainda que o motivo seja a vitória do seu time (dela, mãe) sobre o do filho. Converso apenas com meus botões. Sou a única corintiana da família.

O avô, irônico, na cadeira de balanço, até esboça um sorriso: “vi tudo pela tevê...”

Depois do banho tomado, meu filho preparava-se para dormir quando começa a me contar, como se eu não soubesse:
-Mã, a coisa mais bonita do mundo é ser corintiano.

E me fala dos balões que os Gaviões da Fiel soltaram antes do jogo, com porcos pendurados. Descreve as bandeiras agitadas no estádio, a vibração da torcida, e dentro de mim desconfio desse palmeirense que fala com tamanho entusiasmo do Corinthians.

Ele se dá conta de que exagerou. Que vou ficar muito ancha. Pra um palmeirense não ficava bem tanta admiração. Ainda mais levando-se em conta que estava ali, diante de uma corintiana, e volta a reclamar:
-Até dor de cabeça que nunca senti, estou sentindo. Porcaria de jogo!

Penso nas gozações que ele, o avô e meus sobrinhos fazem de mim quando meu time perde, mas minha grandeza de alma corintiana não me permite extravasar o sentimento de vitória. Desfraldo bandeiras brancas e pretas dentro do peito, meus olhos marejam a cada gol, mas sendo minoria, recolho-me à minha insignificância.

E domingo agora, ao ver meu filho e meu neto Otávio, comentando o jogo, não vi entusiasmo de palmeirenses, mas sim uma admiração enorme por Ronaldo.

Fui buscar no meu diário as anotações que fiz naquela noite distante. E vi uma situação parecida. Meu pai já não está mais aqui, agora são pai e filho comentando o jogo. E a conversa girava em torno do gol do Ronaldo, o desempenho do Ronaldo, e a persistência do Fenômeno.

A vida se renova a cada jogo, a cada geração, pensei. E me senti feliz por vê-los comentarem sem nenhum despeito, ao contrário, com muita admiração, o exemplo de persistência que o Fenômeno tem dado a todo o povo brasileiro. Por vê-los constatar que Ronaldo é maior que qualquer camisa que vista, aqui ou no exterior.

E eu que antes só acompanhei a vida de Garrincha, fico encantada ao ver o Fenômeno declarar aos repórteres suas angústias, suas indecisões, e corajosamente olhar pra câmara e dizer: eu sei que cometo erros, sou igual a todo mundo, sou gente. E acho que é isso que o faz ser tão amado pelo povo brasileiro. Ronaldo cai e se levanta, erra e pede desculpas, como só os grandes sabem pedir... É...Ronaldo deve ser nosso espelho.

 
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
 
 

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