Investigação
da TV Bahia revela esquema que superfaturou em milhões
os cachês de artistas pagos com verba pública no estado
— Foto: Reprodução/TV Bahia
Investigação revela esquema que superfaturou
milhões em cachês de artistas pagos com verba
pública na Bahia
- VEJA O VÍDEO
Mais
de 10 anos de relatórios do TCE e centenas de
notas fiscais apontam para envolvimento de produtoras
e laranjas. Ex-gestor da Sufotur, Diogo Medrado,
está no centro das auditorias. MP-BA investiga
lavagem de dinheiro
18/06/2026
(g1)
- Um esquema envolvendo produtoras de shows
e que durou pelo menos de 2015 a 2024 superfaturou
em milhões os cachês de artistas pagos com verba
pública na Bahia. O caso foi revelado por uma
investigação da TV Bahia, que analisou mais
de 10 anos de relatórios do Tribunal de Contas
do Estado (TCE) e centenas de notas fiscais
que apontam as irregularidades.
Entre os citados estão pelo menos quatro empresas
produtoras de eventos, pessoas usadas como "laranjas"
e o ex-gestor da Superintendência de Fomento
ao Turismo da Bahia (Sufotur), órgão vinculado
à Secretaria de Turismo (Setur), Diogo Medrado.
Ele negou irregularidades nas contratações feitas
enquanto esteve à frente do órgão. (Confira
o posicionamento completo ao final do texto)
O total de gastos da Sufotur até 2026 foi de
R$ 1,84 bilhão. A receita começou em 2019 com
R$ 79 milhões e chegou a R$ 623 milhões em 2024,
ano em que Medrado deixou definitivamente a
gestão da pasta. No período, o crescimento registrado
foi de quase 700%.
Somente entre os anos de 2023 e 2025, quando
nasceu a Sufotur a partir da reestruturação
da Empresa de Turismo do Estado da Bahia (Bahiatursa),
foram registrados 641 pagamentos para as quatro
produtoras, totalizando R$ 58 milhões.
Algumas dessas empresas, inclusive, compartilham
o mesmo endereço, usam o mesmo e-mail e têm
como responsáveis integrantes da mesma família.
Outras possuem endereços "fantasmas",
mas todas movimentaram milhões. Entre elas estão:
- Brilho Estrelar Produções
Artísticas Ltda;
- Estrelar Produções e Serviços Eireli;
- Tamy Produções Artísticas e Serviços Ltda;
- Nível Dez Produções Artísticas e Serviços
Ltda.
Sem saber que estava sendo filmado pela equipe
de reportagem, Alexsandro Sampaio, homem citado
como responsável pela Nível Dez, admitiu o esquema.
Na prática, ele é office boy e a esposa, apontada
como proprietária da Estrelar Produções, é secretária.
O casal vive no bairro de Fazenda Grande, periferia
de Salvador.
"Você vê que são duas salas. Uma empresa
[aqui], ali é outra. Eles colocam nome, mas
está tudo em família", disse Sampaio. Depois,
com a equipe de reportagem, ele negou ter ficado
com os pagamentos da Nível Dez (que recebeu
mais de R$ 10 milhões de dinheiro público.
"Se eu tivesse com R$ 10 milhões agora,
meu amigo, eu não estava vindo de ônibus trabalhar
com uma marmita na mão". Afirmou Alexsandro
Sampaio
Ao longo dos anos, análises foram realizadas,
contas foram desaprovadas e até multas foram
determinadas, mas o prejuízo para os cofres
públicos apontado nos documentos não foi ressarcido.
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Entenda
o esquema
Segundo a apuração, cantores e bandas, sempre
de pouca visibilidade, eram contratados por
valores muito mais altos do que costumavam cobrar
por suas apresentações. Os artistas não recebiam
as quantias excedentes.
A TV Bahia apurou que a maioria desses artistas
sequer tinha conhecimento do esquema, que é
conduzido por produtores e empresas que intermediavam
as contratações. Outros eram obrigados a emitir
notas mais altas
"Eles [as produtoras] vão procurar e aí
perguntam se ele tem nota. Se a nota é baixa,
de R$ 10 mil, R$ 15 mil, eles não aceitam. Eles
só aceitam nota acima de R$ 50 mil, R$ 60 mil,
porque eles têm como ganhar", destacou
um artista que preferiu não se identificar.
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de Ipirá
As
irregularidades começaram a ser apontadas em
2015, durante a gestão da então Bahiatursa.
Entre problemas recorrentes apontados pelos
relatórios do TCE, estão falta de justificativa
de preços, concentração de contratos nas mesmas
empresas e indício de intencionalidade nas ações,
por ignorar orientações do órgão.
Investigação
da TV Bahia revela esquema que superfaturou
em milhões os cachês de artistas pagos com verba
pública no estado
— Foto: Reprodução/TV Bahia
É
indicado também o uso
irregular de inexigibilidade de licitação,
que consiste na dispensa legal da realização
de concorrência pública. Exclusivamente aplicada
com grandes artistas, a ação precisa atender
a exigências rigorosas para garantir a legalidade
e evitar fraudes, tais como:
- o artista precisa ter
notoriedade reconhecida;
- o contrato deve ser feito diretamente com
o artista ou o empresário dele;
- o valor pago deve ser compatível com o praticado
no mercado;
- o motivo da escolha ainda precisa ser detalhado
em processo administrativo.
Mesmo com pouca expressividade, as atrações
contratadas chegavam a receber até R$ 180 mil
da Sufotur para uma apresentação, sendo que
para demais contratantes os cachês eram bem
menores.
Um exemplo disso é a cantora Emily Ferraz. A
TV Bahia obteve acesso a áudios e mensagens
que mostram a negociação da empresa que administra
a carreira da artista para um show privado por
R$ 8 mil. Já para o governo baiano, sete apresentações
custaram mais de R$ 500 mil, o equivalente a
R$ 71 mil por show.
Procurada pela TV Bahia, Emily disse desconhecer
qualquer pagamento com sobrepreço ou superfaturamento.